Este texto argumentativo prõpoe unicamente evidenciar as falácias da universalização da ética, por meio de uma análise fundamentada em quatro raízes.
Raiz primeira: o universo como coisa em si
O primeiro grande problema de se pensar em uma universalização da ética não seria a noção de ética, mas a noção de universalização. A universalização ética é proposta segundo um universo metafísico que é regido pela lógica humana, ao invés de sê-lo por leis naturais. Portanto, esclareço, é um erro tentar explicar um fenômeno natural através de uma lei metafísica.
Imagine você, por exemplo, se a medicina, ao invés de tentar compreender a enfermidade e o tratamento, propusesse uma explicação da patologia baseada em ordem cósmica. Com certeza, a seleção natural não existiria. Por quê? Porque a própria definição do cosmos já seria um conceito aplicado ao universo, como se o universo tivesse que obedecê-lo para que se comprovasse a teoria. Nesse sentido, todos os filósofos neo-platônicos têm dificuldade de dizer o que é a vida, o humano, o natural...
A aplicação de juízos a priori nos leva a sistemas metafísicos perfeitos, se não fosse o fato de serem incompatíveis com a realidade. É apenas um erro, que significa, no entanto, a queda total e permanente do conceito.
Percebemos, assim, que as leis naturais são rígidas, ao passo que as postulações metafísicas são voláteis. E, portanto, uma universalização que pensa o universo como algo metafísico não é criteriosa o suficiente para fundamentar um sistema ético universal.
Raiz segunda: a ética como corrente espiritualista ou nominalista (?)
Se pode definir algo de forma espiritualista, que significa ter um conceito, ou de maneira nominalista, que consiste em ter um nome. A pergunta é: o pensamento é fruto da lógica ou da linguagem?
Particularmente, não acredito em tal dicotomia - "a lógica da linguagem precede a lógica do pensamento", afirmara Nietzsche. Assim, fica evidente que assumo uma concepção de relação processual entre linguagem e lógica.
Porém, em uma fundamentação de uma ética universal, temos que definir se: a) a ética parte de um preceito lógico irredutível, ou b) a lógica é uma linguagem. Caso "a" seja correto, cria-se um problema sem solução, isto é: qual o princípio lógico irredutível que nos levou a uma sociedade que mata e, ao mesmo tempo, condena o homicídio - às vezes, com pena de morte, o que seria uma dupla auto-contradição? Uma solução fácil porém inconsistente seria marginalizar o homicida, ou qualquer outro infrator da ética; no entanto, muito se tem discutido acerca da formação da ética em grupos que divergem da ética predominantemente aceita.
Além disso, há o fato de que, nas recentes pesquisas da Biologia, têm se evidenciado casos de comportamento ético em determinadas espécies, como o pássaro Zaragateiro. Isso, indubitavelmente, pode ser um indício de uma formação ética natural, pelo menos parcialmente; dessa forma, a dificuldade de se estabelecer um princípio ético que possa reger diferentes espécies aumenta consideravelmente. No caso das abelhas, por exemplo, que estabelecem uma verdadeira monarquia, ou no caso das cobras, que atacam as récem-nascidas criaturas que dela vieram.
Outro ponto seria: se há um princípio irredutível, então, a rigor, não há liberdade?
De outro lado, se a ética é nominalista, todos os problemas éticos são problemas de linguagem. A linguagem, no entanto, não admitiria uma universalização, visto que a linguagem, tal como qualquer processo evolutivo, é adaptativa.
Raiz terceira: o costume contra a metafísica
A ética, sem dúvida, pode estar fundamentada no costume. Para os autores pós-modernistas, a ética está intrinsecamente ligada ao costume - e por ele é regida. Se a ética está fundamentada no costume, a universalização da ética seria inviável do ponto de vista lógico.
Apenas um fator determina isso: a impossibilidade de universalização do costume. A não ser que queiramos cometer o grotesco erro marxista de pensar que só há o coletivo, jamais poderemos pensar o costume como costume universal.
O costume é uma particularização de um coletivo dentro do grande coletivo chamado sociedade. A sociedade, no entanto, é um coletivo tão volátil que é absurda a proposta de universalizá-la. Por exemplo: a sociedade come carne ou é vegetariana? a sociedade tem atitudes ecologicamente corretas ou não? a sociedade é socialista ou capitalista? a sociedade é paternalista? é sexista? é a favor das cotas?
Com certeza, não há uma ética universal que explique - ou, menos ainda, que possa explicar - o comportamento social.
A ética de uma (no sentido de numeral, em vez de artigo indefinido) pessoa ser definida como inflexível e irredutível - requisito para a universalização - já é generalização absurda; dessa forma, se negariam a liberdade, o direito de escolha, a possibilidade de mudança e a contigência do futuro.
Raiz quarta: a necessidade de adaptação do sistema e o ser matariam a lógica universal
Por fim, sugere-se o seguinte paradoxo: um sistema pode tornar-se universal sem ser condizente com as mudanças do universo - ou, de forma reduzida, as do homem? Há um princípio vigente capaz de, ao mesmo tempo, ser universal e ser adaptável? A ética, se adaptável, ou seja, diferente, ainda é universal? O tempo é uma categoria nula nesse caso, então?
Já o ser, a menos que não lhe seja concedida liberdade - por uso do poder ou por impossibilidade lógica -, não pode ser reduzido a um princípio, pois ele já é um princípio. O ser é um fenômeno que merece análises e considerações particulares, pois o ser é essencialmente particular.
Dizer que o indivíduo é universal é dizer que não há subjetividade, ou que a soma dos fatores comuns é maior do que a existência de indivíduos diferentes.
Não parece coerente crer que se possa ter um acúmulo de pessoas em um mesmo conceito. É claro que há grupo e que há perfil, porém, de fato, existem diferenças e particularizações que invalidam uma ética comum.
O texto Fuñes, el memorioso, de Jorge Luis Borges, dispõe a impossibilidade de tornar o objeto irredutível a ele mesmo, isto é, de dizer que há uma essência permanente e imutável de algo. A natureza do ser consiste na mudança - só permanece o fato de modificar-se.
Isso torna possível que uma pessoa, por exemplo, mude de idéia - e, igualmente, que opte por afirmar a mesma idéia. Se há uma essência ulterior, não há liberdade. Um objeto, dessa forma, jamais pode ser apreendido em sua essência sem se determinar, igualmente, tempo e espaço - a cor de determinada folha, de determinada árvore, em determinado lugar e em determinado horário.
Do contrário, afirmar-se-á que cada folha é igual à outra, o que não é um erro filosófico, mas, sim, perceptivo. Pode-se pensar em um universo intangível. Incompativelmente, não se pode viver nele.